UMA REFLEXÃO PSICOPEDAGÓGICA:
Dificuldade de Leitura e Escrita ou Dislexia?






Parte - 1

1     DISLEXIA: CONCEITO E CARACTERÍSTICAS GERAIS

 

Muitos são os distúrbios de aprendizagem encontrados hoje em nossas escolas. Para cada qual, há uma série de sintomas e, dentre eles, encontramos a Dislexia, que é mais do que podemos supor.

O distúrbio chega a ser uma novidade até para os educadores que, apesar de perceberem as dificuldades presentes em sala de aula, não conseguem diferenciá-las entre si. Mesmo porque um distúrbio acarreta sintomas variados e difíceis de serem analisados isoladamente, a menos que se busque ajuda dos especialistas multidisciplinares.

     Para Fernandez (1991), para resolver o problema que afeta a criança, deve-se intervir no contexto que a priva das possibilidades de aprender; que a priva de um espaço de autoria de pensamento; devemos intervir no sistema ensinante, pois o fracasso escolar afeta o sujeito em sua totalidade.

     Segundo a autora, para a criança há um descrédito consigo mesma por não conseguir atingir as expectativas dos pais e professores. Por sua vez, a identidade não é algo que se adquire de uma só vez e para sempre, mas é produto de construções identificatórias para as quais cumpre um papel importante os modos como os demais nos definem.

     “Para as crianças, e muitas vezes para seus professores, seus méritos costumam ser medidos através de provas e reconhecimento de suas aptidões a partir dos resultados obtidos nelas”. (FERNANDEZ,1991, p.261).

     Portanto, num mundo tão cheio de diferenças, estar a par de algumas das problemáticas sofridas pelos alunos pode diminuir a tensão vivida por eles na escola, principalmente as relacionadas à aquisição da leitura e escrita. A Dislexia vem a ser um sintoma justamente relacionado a essa área: a da linguagem. Os testes Psicopedagógicos, com uma relativa precisão, diagnosticam as dificuldades de aprendizagem relacionadas à linguagem. Portanto, a Dislexia pode ser vista como:

[...] um conjunto de sintomas reveladores de uma disfunção parietal (o lobo do cérebro onde fica o centro nervoso da escrita), geralmente hereditária, ou às vezes adquirida, que afeta a aprendizagem da leitura num contínuo que se estende do leve sintoma ao sintoma grave. Acompanhada frequentemente de transtornos na aprendizagem da escrita, ortografia, gramática e redação. Os meninos são afetados numa proporção maior do que em meninas. (DROUET, 2001, p.137)

 

          “Segundo estudo de especialistas, é possível detectar a dislexia pelo número de sinais que ela apresenta, interferindo na maneira como a criança pode ser considerada com um distúrbio de aprendizado percebe e processa letras, números e símbolos, apesar da necessidade de se levar a um profissional competente para que se faça o diagnóstico. Entre os sinais, pode-se observar o modo como são escritos os números e letras, invertidos ou de cabeça para baixo. Além destes, há dificuldades em aprender alguns fonemas, memorizar novas palavras, problemas com a coordenação motora e dificuldades de leitura”. (DROUET, 2001, p.137)

 

            Com estes sinais é possível e necessário procurar uma orientadora educacional de sua escola para solicitar uma avaliação ou encaminhamento para um especialista em Educação nas áreas de Psicopedagogia, Psicologia, Fonoaudiologia ou Terapia Ocupacional.  Com o diagnóstico precoce e suporte apropriado estas crianças podem ter um desenvolvimento adequado, igualando suas chances de sucesso pessoal e profissional as de seus colegas.

             Embora este trabalho não pretenda aprofundar em tal questão, pesquisas da atualidade têm mostrado que crianças disléxicas tratadas podem ter rendimento muito similar ao de crianças de que apresentam o problema.

“A dislexia representaria um tipo especial de maturidade cerebral, na qual se atrasaria a função de reconhecimento visual e auditivo dos símbolos verbais. Sua natureza consiste em base neurológica. Parece haver no mapeamento uma área específica relacionada às dislexias, mas não existe sinal de dano cerebral em testes (disfunção)”, (PAIN, 1994 p.30 apud VENTAVOLI).

 

            Por alguma razão parece ocorrer uma leve desorganização no processamento de informações.

            Para Pain (1992, p.30), segundo Ventavoli:

A noção de dislexia como entidade específica merece consideração especial dentro dos problemas de aprendizagem. Na realidade, neste caso pode considerar-se um só tipo de dislexia, que rara vez ocorre, pois se trata de um problema dentro das agnosias, que não impede à criança ou ao adulto afetado por um processo traumático reconhecer os fonemas através de sua grafia. Alguns dos critérios para o diagnóstico diferencial são: rendimento da leitura (teste padronizado) muito abaixo do nível esperado para idade, tendo em vista a escolaridade e a capacidade intelectual do indivíduo (teste de Quociente de Inteligência-Q.I.); Perturbações que estejam interferindo significativamente no sucesso escolar ou nas atividades diárias que requerem capacidade em leitura; Em presença de déficit sensorial, as dificuldades de leitura excedem aquelas geralmente a este associada. (PAIN, 1994, p.30 apud VENTAVOLI, 2012).

            Embora as pesquisas apontem um número considerável de crianças disléxicas no mundo todo, aproximadamente 20%, a maioria dos educadores não sabe o que fazer para elas aprendam a ler, escrever e soletrar.

            “Sem o adequado tratamento, o disléxico poderá enfrentar grandes dificuldades para a leitura e assimilação de palavras, embora muitas delas tenham inteligência superior à maioria da população”. (PAIN, 1994, p.15-30).

            Para outros, a Dislexia é muito mais do que uma dificuldade em leitura, refere-se a uma disfunção ou dano no uso de palavras.

            Em Rorato (2007) são encontradas definições muito bem fundamentadas em especialistas da área sobre o assunto. Ela explica que prefixo “dys”, do grego significa imperfeito, indicando uma disfunção, isto é, uma função anormal ou prejudicada; e o termo “lexia”, do grego refere-se ao uso de palavras, não somente em leitura, mas também na escrita, na fala, na linguagem receptiva, em todas as formas de linguagem.

            E essa linguagem é supervalorizada, pois é através dela que se aprende não só a língua materna, o português, como também a matemática, ciências naturais, ciências sociais ou qualquer outra disciplina.


     1.1  Formas de Dislexia.

            Conforme Oliver (2004 apud RORATO, 2007), nem tudo o que se ouve sobre a Dislexia pode ser considerada verdade forçando-nos a esclarecer e desmentir tantas falácias que estão por aí. Afirma, ainda, que a Dislexia pode se manifestar de três formas.

            Primeiramente como a Dislexia Congênita ou Inata, que é aquela que nasce com o sujeito.

            Pode ter as mais variadas causas e características próprias como, por exemplo, uma comprovada alteração hemisférica cerebral, onde os hemisférios encontram-se com tamanhos invertidos ou em tamanhos exatamente iguais, quando o considerado normal é que o esquerdo seja maior que o direito. (OLIVER, 2004 apud RORATO, 2007).

            Por isso, o sujeito disléxico não apresenta habilidade para a aquisição de leitura/escrita, não chegando nem ser alfabetizado, na maioria das vezes, e quando a alfabetização ocorre, não consegue ler/escrever por muito tempo e, quando termina de ler/escrever já não se lembra de nada, com memorização muito curta e cansaço constante pelo esforço exigido na tarefa (OLIVER, 2004 apud RORATO, 2007).

            Esse tipo de dislexia é incurável, devendo ser tratado por um conjunto de profissionais, cujo tratamento denomina multidisciplinar, envolvendo sempre Psicopedagogo, Neurologista e/ou Psiquiatra dependendo da gravidade do caso.

            O Fonoaudiólogo é de extrema importância para casos onde haja comprometimento na fala ou na audição.

            Para as dificuldades psicomotoras e de lateralidade, deve-se procurar um Psicomotricista e neste caso, também é aconselhável que um Psicólogo acompanhe o tratamento e desenvolva atendimento paralelo.

            A Dislexia Adquirida vem através de um acidente, como nos casos de anoxia perintal ou por afogamento, Derrame Vascular Cerebral (AVC) e outros acidentes/distúrbios.

            Neste caso, o indivíduo que antes lia e escrevia normalmente, passa a ter períodos de Dislexia, não conseguindo ler/escrever ou apresentando dificuldade para fazê-los; tem falhas de memória e pode também apresentar problemas de lateralidade (OLIVER, 2004 apud RORATO, 2007).

            Dependendo do grau de dificuldade que o indivíduo apresente é também necessário um Tratamento Multidisciplinar e a equipe saberá indicar quais especialistas este sujeito necessitará. Caso o acidente tenha afetado também demais sistemas, outros especialistas serão chamados para realizar um tratamento de reconstrução das habilidades do mesmo. Nestes casos, se o indivíduo já tinha uma profissão, deverá apenas adaptar-se para enfrentar os períodos em que estiver disléxico e seguir seu tratamento, podendo obter cura ou boa melhora, já que sua dislexia não envolve alterações hemisféricas. (OLIVER, 2004 apud RORATO, 2007).

            A Dislexia Ocasional é aquela causada por fatores extremos e que aparece em períodos de alto estresse, causando um esgotamento do Sistema Nervoso. Isso pode ocorrer por excesso de atividades e, em alguns casos considerados raros, por Tensão Pré-Menstrual (TPM) ou hipertensão. Se este tipo de Dislexia for diagnóstico, o tratamento é o mais fácil de todos os tipos, pois não há necessidade de grandes intervenções. O repouso será suficiente, com umas boas férias, uma mudança de horários, de rotina e tudo voltará ao normal. (OLIVER 2004, apud RORATO, 2007).

            Dentro destes tipos, existem variações que parecem tornar cada caso um caso, cada disléxico, único. Portanto, não se pode admitir generalizações, conforme destaca, (DROUET 2001 apud RORATO, 2007).

É preciso parar definitivamente de imaginar que a Dislexia faça trocar letras. O que acontece com o disléxico é que, na maioria dos casos, ele não identifica sinais gráficos/letras ou qualquer código que caracterize um texto. Portanto ele não troca letras, porque seu cérebro sequer identifica o que seja letra. Inverte-se letras/ sílabas é simplesmente por nem saber o que são e não como se insiste em divulgar porque “troque letras”. Existem muitos distúrbios que fazem realmente trocar letras que em outra oportunidade, poderei esclarecer. (DROUET, 2001, p. 137 apud ROTATO, 2007 p. 02)

 

            “Independente de que tipo for a Dislexia, o mais indicado é que a pessoa diagnosticada pratique muito esporte, principalmente a natação muito contribui para melhoria do quadro. Esportes com bola, como: futebol, vôlei e outros também são extremamente benéficos” (DROUET, 2001, p.137 apud RORATO, 2007).

REFERÊNCIAS

FERNÁNDEZ, A. A inteligência aprisionada: Abordagem psicopedagógica clínica da criança e da família. Porto Alegre, Artes Médicas, p. 261,1991.

DROUET, R. C. R. Distúrbios de aprendizagem. São Paulo: Ática 4ª edição, p.137, 2001.    

PAIN, S. Diagnóstico e Tratamento dos Problemas de Aprendizagem. Ed. Artes Médicas. Porto Alegre, Editora. Artes, p.15 1994. 

RORATO, A. F. Dislexia. In: Trabalhos Feitos. com, 2007, p. 07. 

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